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Estava me sentindo profunda
À uma da madrugada, com frio e sozinha, estava me sentindo profunda e fiquei como vontade de ler alguma coisa de Clarice Lispector. Então fui até seu site oficial – não tenho nenhum livro dela, aqui em casa – e encontrei uns pequenos trechos de seus escritos. E foi suficiente por enquanto. Escolhi alguns para colocar aqui.
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Gosto muito de Perto do coração selvagem. Li quando tinha 17 anos – a mesma idade que Clarice tinha quando o publicou:
Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!
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Esse trecho está em Aprendendo a viver – Imagens:
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
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Esse está em A bela e a fera:
Eu queria iniciar uma experiência e não apenas ser vítima de uma experiência não autorizada por mim, apenas acontecida. Daí minha invenção de um personagem. Também quero quebrar, além do enigma do personagem, o enigma das coisas.
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Clarice escrevia para jornais, em suplementos femininos. Os textos foram reunidos em Correio feminino:
As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.
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E, por último, um trecho do meu texto preferido dela: Tentação, um conto de Felicidade clandestina. Fala do encontro de uma menina ruiva e de um cão basset – também ruivo – acorrentado, às três da tarde:
[...] Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. [...] Mas ambos eram comprometidos. Ela, com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. [...]
(Quer ler o conto Tentação na íntegra? Clique aqui)